terça-feira, 26 de agosto de 2014

As redes sociais no local de trabalho: do “social media” ao “social business”

Para que as redes sociais sejam valorizadas nos ambientes empresariais é importante que sejam utilizadas colaborativamente como parte das tarefas

A função das redes sociais em ambientes empresariais foi quase sempre tida como negativa, apesar da sua popularidade crescente. Os gestores temem uma queda na produtividade da sua equipe. As redes sociais nas empresas surgiram orientadas para o consumidor como ferramentas de marketing, incorporando blogs, Facebook, Twitter e YouTube e sempre centradas em capitalizar as enormes audiências atraídas por essas plataformas. Com isso, a indústria do software empresarial passou a acrescentar aplicativos de redes sociais aos sistemas sem um objetivo definido. Atualmente sua função nas empresas tem sido mais bem aceita mas ainda continua bastante monopolizada pelos diretores de marketing.

Revelações para uma revolução

Para que as redes sociais sejam valorizadas nos ambientes empresariais é importante que sejam utilizadas colaborativamente (Social Media 2.0) como parte das tarefas ou integradas aos aplicativos empresariais utilizados. Os programas de marketing usam as redes sociais com sucesso, mas poucas campanhas exploram as capacidades dessas redes para suportar conversas multidirecionais. Já é sabido que o uso correto das redes sociais ajuda num melhor envolvimento dos colaboradores, inclusive para tomar decisões mais acertadas através da resolução de problemas, redução dos custos, facilitação das relações com os clientes e geração de lucros. 

As ferramentas de integração às redes sociais simplificam as soluções de negócio e se atrelam ao software empresarial que já conta com ferramentas para integração social. Essas soluções trabalham na intersecção entre o processo de negócio e a comunicação humana, facilitando o gerenciamento dos perfis sociais das empresas. Aplicadas ao software de gestão empresarial, as redes sociais representam uma nova forma de promover a colaboração entre diferentes grupos. As mensagens e alertas integrados nas aplicações empresariais influenciam os processos de negócio e proporcionam valor aos usuários.

Um sistema ERP definido pelo usuário, por exemplo, funciona da mesma forma como o Facebook e o Twitter ― através da seleção de feeds. Quem utiliza a rede social pode acompanhar dados pertinentes para a sua função na empresa e receber informação constante sobre o que for relevante para ele. Outro benefício crucial da aplicação das redes sociais ao ERP é a de que as novas gerações – muito familiarizadas com o Google, Facebook, YouTube e Twitter – poderão adotá-los e usá-los de forma instantânea, com menos formação e tempo gasto nas tarefas que desempenham.

Uma das inovações das ferramentas das redes sociais é a inserção do conceito de fluxos ― canais de comunicação ― que permitem organizar os processos de trabalho na companhia. Os passos para a execução de cada atividade são definidos pela própria empresa que conhece melhor o dia a dia das atividades que desenvolve. Isso possibilita acelerar os processos de comunicação, além de permitir criar definições mais claras dos fluxos de trabalho. São ferramentas colaborativas, que adicionam controle aos processos e abrem a possibilidade para adicionar pessoas que estão fora da empresa, sem que isso comprometa a segurança da rede de comunicação.

Uma reforma significativa

O ERP já merecia uma reforma. Incorporando as redes sociais para assegurar que qualquer usuário esteja a apenas a um clique de distância do mundo de outro usuário, o software empresarial conseguiu uma transformação sem precedentes ― de redes sociais para negócios sociais.

A produtividade é ampliada pois otimiza-se o tempo gasto para realizar cada tarefa. Os aplicativos próprios do ERP e das ferramentas das redes sociais permitem utilizar Big Data para prever ações e comportamentos dos prospects ou clientes. Soluções inovadoras também recorrem aos KPIs – Indicadores chave de Desempenho (Key Performance Indicators). Os KPIs somam-se a recursos que permitem identificar com mais agilidade o que os usuários estão falando sobre sua empresa, auxiliam num melhor gerenciamento de sua marca nas mídias sociais e simplificam a definição de estratégias. 

À medida que o volume e a variedade de dados continuam a aumentar e as decisões precisam ser tomadas mais rapidamente e de forma mais inteligente, as redes sociais desempenham um papel crucial na empresa – não apenas para o marketing, mas nos sistemas que suportam funções essenciais de back office. Ao estimular o empenho do internauta, a capacidade de tomar as melhores decisões, aumentar a produtividade e o sucesso dos negócios sociais no local de trabalho pode estar apenas no seu início.

Por Lisandro Sciutto
Fonte: Administradores

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Vida de precrastinador


Emails respondidos, documentos entregues, proposta enviada, relatórios preenchidos. Esse poderia
ser um exemplo de uma checklist feita diariamente por profissionais precrastinadores.



O comportamento pode parecer um sinal de comprometimento e eficiência, mas especialistas
defendem que ser um precrastinador também tem suas desvantagens.



Quem criou o termo, em oposição aos procrastinadores, foram pesquisadores da Universidade
Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Eles publicaram um estudo sobre o tema na edição de
julho da revista científica "Psychological Science".



A ideia é que sempre tentar se livrar a qualquer custo e o quanto antes dos trabalhos que se
apresentam, mesmo que isso exija sacrifícios exagerados, pode ser um mau negócio.



Segundo os especialistas, a necessidade de resolver de uma vez as pendências pode levar à falta
de priorização -algumas coisas devem ser deixadas para depois simplesmente porque são menos
importantes-, à perda de qualidade e ao aumento do estresse da equipe.



O excesso de velocidade pode ainda sacrificar a reflexão, por não dar tempo para o
amadurecimento das ideias e para a reflexão crítica sobre qual o melhor processo a ser adotado
para resolver determinado problema.



Entre os pontos positivos do comportamento, destaca-se a possibilidade de ter tempo para revisar e
até refazer um trabalho -quem entrega tudo em cima do deadline não tem segunda chance.
Além disso, como lembra Lucas Torres Silva, 26, dono da agência de marketing digital Midiaver.com,
que se considera um precrastinador, entregar trabalhos com antecedência causa uma ótima
impressão em chefes e especialmente em clientes.


Ele conta que abriu sua agência com apenas 21 anos. Isso fez com que tivesse uma especial
necessidade de passar confiança para os clientes, e adiantar trabalhos foi a solução encontrada.
Há ainda uma sensação de alívio que o leva a precrastinar, conta Lucas. "Eu penso que, se eu
resolver logo, não vou ter mais tarefa."


Perfil parecido tem Leonardo Araújo, 29, que é analista de operações de TI da Mandic, empresa de
tecnologia especializada em computação em nuvem, e trabalha diretamente com os cliente. Ele é
conhecido na empresa por se antecipar aos prazos e por sempre responder os emails
imediatamente.


Se o trabalho é para segunda-feira, o analista prefere ficar até mais tarde e terminar tudo na sextafeira
a finalizar na semana seguinte quando inicia o expediente. "Senão, eu vou passar o fim de
semana querendo resolver."


Embora a precrastinação também possa ocorrer fora do ambiente de trabalho -uma pessoa que
paga todas as contas bem antes de elas vencerem, por exemplo-, é nas empresas que há mais
incentivo para esse comportamento, afirma o professor da Fundação Getúlio Vargas e da Unicamp,
Roberto Heloani.


Segundo ele, que trabalha na interface da psicologia com a gestão de pessoas, a realidade
corporativa contemporânea valoriza profissionais com esse perfil.


"Como permanece uma lógica de cobrança constante, há pressão para diminuir os prazos de
entrega. O profissional só consegue relaxar e muitas vezes curtir um fim de semana se a tarefa já
tiver sido despachada", avalia.


Para a gerente de comunicação e marketing da consultoria de recrutamento de altos executivos
Hays, Mariana Schwarz, também é natural que os profissionais adotem esse tipo de comportamento.
"Em qualquer jornal que você lê, fala-se em produtividade. É a palavra do momento no mundo
corporativo", diz. A própria Schwarz afirma se identificar com o perfil precrastinador.


Os pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia cunharam o termo precastinação depois
de se surpreenderem com o resultado de um experimento.


Eles pediram a vários estudantes que entregassem uma balde carregado a um pesquisador que
aguardava a alguns metros de distância. Eles podiam tanto pegar um balde que estava do seu lado
quanto um que estava mais adiante, perto do destino final.
Os pesquisadores imaginavam que os cobaias escolheriam os baldes mais próximos ao pesquisador
–porque, obviamente, teriam de carregá-los por menos tempo.


Para sua surpresa, porém, a maior parte dos alunos pegou o primeiro balde, realizando a tarefa da
maneira que exigia mais esforço.


A equipe de David Rosenbaum, do departamento de psicologia, chegou a achar que os alunos não
tinham entendido direito as instruções.


Eles repetiram então o experimento oito vezes, ressaltando que os estudantes poderiam entregar
qualquer um dos baldes. Em um dos experimentos, chegaram a carregar os baldes com moedas,
deixando-os bastante pesados, na expectativa de que os alunos se tocariam de que estavam
gastando energia à toa.


A maior parte dos alunos continuou, porém, escolhendo o balde mais distante.


A hipótese que os pesquisadores escolheram para explicar o resultado é que as pessoas, ao
pensarem algo como "bom, vamos resolver isso de uma vez", são capazes de trabalhar mais que o
necessário para realizar uma determinada tarefa.


Rosenbaum aponta para a natureza humana para justificar tal comportamento. As pessoas tendem
a ficar aliviadas quando esvaziam a sua "memória de trabalho", uma lista de pendências a resolver
que ocupa os nossos cérebros.


No limite, uma implicação das descobertas dos psicólogos é que as pessoas podem sacrificar seu
próprio bem-estar para ter a sensação de estar livre de pendências.


Silva e Araújo não consideram que sua tendência a precrastinar seja prejudicial nem se sentem de
alguma forma sobrecarregados.


O professor Heloani, da FGV, pondera, porém, que a ansiedade dos precrastinadores pode deixálos
mais suscetíveis a doenças.


A gerente da Hays Mariana Schwarz concorda. Apesar de destacar que o precrastinador costuma
ser bem avaliado pelo gestor, ela afirma que esse hábito, em casos extremos, pode ser prejudicial
para a saúde mental do profissional e para o resultado final do trabalho. Tanto o profissional quanto
sua equipe podem acabar estressados.


Quando se trata de cargos de gerência e diretoria, o estrago pode ser ainda maior: "A decisão pode
ser tomada errada, sem analisar outros pontos de vista, e a pessoa pode perder credibilidade."


O próprio professor Rosenbaum se disse preocupado com as implicações da precrastinação na vida
das pessoas. Segundo ele, em situações como a do balde, ela leva à irracionalidade.
"Mas eu estou aqui respondendo suas perguntas imediatamente", brincou, ao ser questionado
sobre o tema pela Folha por email.


Por Victória Mantoan
Fonte: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O jogo da competência

O mundo atual é uma bola conectada, e assim as organizações devem estar agrupadas em círculos, pois o que pesa nos dias de hoje não é mais o quantitativo, mas o valor qualitativo


O jogo que tem valor está exatamente no campo de batalha e, portanto, é de alto risco e feito para uma nova safra de destemidos, loucos e determinados conquistadores. Ao contrário, num passado muito próximo, o show era ser parte de um "staff", medido por reuniões intermináveis, junto a um grupo de estratégicos pensadores, sempre destacando a importância hierárquica por uma decisão final.
O mundo atual é uma bola conectada, e assim as organizações devem estar agrupadas em círculos, pois o que pesa nos dias de hoje não é mais o quantitativo, mas o valor qualitativo de grupos com ampla visão dos meios externos e capacidade de entendimento dos internos, para que no coletivo das criações possamos desenvolver em coerência com um tempo, onde prevalecem os sentidos das decisões, sempre priorizando a agilidade, qualidade e velocidade nas fases que migram de um pensar para um projetar e agir.
Nosso grupo de competência deve integrar os lados que treinam com os que ensinam, em conjunto com a inversão contínua entre os mestres e os alunos, pois são conjuntos homogêneos que determinam a harmonia necessária para que as coisas aconteçam e surpreendam.
No quadro abaixo, exemplifico isso de maneira gráfica:
Fonte: Administradores

As dez profissões que mais precisam de qualificação no país


Pesquisa aponta os postos que as empresas estão tendo mais dificuldades para preencher
Foto: Agência O Globo/Arquivo
RIO — A empregabilidade passa por uma crise global: a escassez de profissionais qualificados vem se acentuando em praticamente todo o mundo. É o que revela a 9ª Pesquisa Anual sobre Escassez de Talentos (Talent Shortage Global Survey), do ManPowerGroup, que relata a dificuldade das empresas em encontrar profissionais preparados para atender as suas necessidades.

Foram ouvidos mais de 37.000 empregadores em 42 países e territórios (no Brasil, 850 empregadores participaram da pesquisa), sinalizando a média global de escassez de talentos em 36%, a mais alta desde 2007 (41%). Em 2013, a média foi de 35%. De acordo com o estudo, os países que mais sofrem com esta situação, hoje, são: Japão (81%), Peru (67%), Índia (64%), Argentina (63%) e Brasil (63%). Empregadores na Irlanda (2%), Espanha (3%), Holanda (5%), África do Sul (8%) e Singapura (10%) são os menos propensos a enfrentarem essa dificuldade na hora de contratar este ano.

— No Brasil, a situação permanece preocupante. A pequena queda percentual de 68% em 2013 para 63% em 2014 não significa melhora no quadro da empregabilidade. As empresas continuam sem preencher vagas, pois não encontram profissionais com as competências necessárias para os cargos — afirma Riccardo Barberis, CEO do ManpowerGroup Brasil, segundo quem a expectativa não é de melhora nos próximos anos. — Houve investimento recente do governo brasileiro e das próprias organizações em programas de treinamento e cursos profissionalizantes, porém são ações de longo prazo, que ainda não refletem no resultado do estudo.

O estudo mostra que, no ranking de dez profissões com maior escassez de talento no Brasil, destacam-se (ver quadro abaixo) operários, técnicos e motoristas. A lista também inclui profissionais da área de tecnologia da informação (TI) e engenheiros. No mundo, pelo terceiro ano consecutivo, os empregadores relatam maior falta de pessoal qualificado nas chamadas “profissões de ofício” (pedreiros, marceneiros, costureiras, eletricistas etc), com engenheiros repetindo seu segundo lugar. O aumento na demanda pelos técnicos os coloca na terceira posição.

Nos dois casos, isso se deve, em parte, ao gap entre o perfil de competências que hoje é requerido nessas funções e o perfil que as pessoas apresentam (usualmente são as competências básicas), afirma a diretora de Recursos Humanos do ManpowerGroup, Márcia Almstrom:
— Se tornaram perfis e funções mais complexas. No passado, o motorista, por exemplo, precisava simplesmente dirigir. Hoje, se a pessoa for dirigir um caminhão, vai se deparar com ferramentas tecnológicas no veículo, GPS, que não obrigatoriamente está qualificada para manipular.

Para superar esse problema, as estratégias mais comuns que as organizações estão adotando mundialmente são: aumento dos treinamentos para os empregados atuais, mais oportunidades de desenvolvimento para a equipe atual, redefinição de descrições de cargos e aumento dos benefícios oferecidos.

De acordo com Márcia, as empresas estão mais flexíveis ao determinar as competências necessárias para o preenchimento de suas vagas.
— Elas estão optando por contratar os profissionais e oferecer a eles, já em casa, o treinamento necessário para a aquisição das competências exigidas — explica a diretora do ManPowerGroup.

Outra alternativa adotada, diz Márcia, é mudar a matriz de contratação. Isso significa que as empresas estão se moldando ao mercado e redesenhando suas estratégias de preenchimento de postos de trabalho. Atualmente, as empresas estão explorando fontes alternativas de talentos, como os trabalhadores mais velhos e os jovens. Também estão movendo o trabalho para as regiões com maior demanda de profissionais.

— Nesse cenário, as consultorias tem papel fundamental para auxiliar os empregadores a encontrarem o melhor desenho possível para que o gap da empregabilidade não impacte os objetivos de negócio das empresas — afirma a executiva.

Empresas relatam os efeitos
O estudo global mostrou também que como o cenário vem se agravando, as empresas já têm consciência do impacto que a falta de profissionais capacitados causa aos negócios.

As organizações participantes da pesquisa apontam que a escassez resulta diretamente na redução da capacidade de atender adequadamente seus clientes (41%); redução da competitividade e produtividade em geral (40%); aumento da rotatividade de pessoal (27%); e diminuição na criatividade e inovação (24%).

— No Brasil, já é discurso comum entre os líderes empresariais a falta de competitividade e a necessidade de aumentar a produtividade para tornar-se atraente no mercado — acrescenta Barberis, ressaltando que a carência de profissionais pode impactar a economia do país.

Cenário nas Américas
O estudo aponta que, nas Américas, os motivos mais comuns para os empregadores dizerem que não conseguem preencher as funções são: falta de competências técnicas e habilidades mensuráveis, com 34%; falta de experiência com 29%, representando um aumento em relação a 2013, quando o índice foi de 24%; e falta de candidatos disponíveis, com 25%.

As estratégias que os empregadores do continente estão adotando para superar este problema apresentaram algumas mudanças em relação às globais e também ao ano anterior, como: aumento de organizações que pretendem fornecer treinamento e desenvolvimento adicional aos atuais funcionários; aumento na exploração de novas fontes de talentos como jovens e mulheres; e diminuição na contratação de profissionais sem habilidades necessárias, mas com potencial para desenvolvê-las.

Confira os ranking dos profissionais mais procurados:
No Mundo:
1 - Trabalhadores de ofício manual
2 - Engenheiros
3 - Técnicos
4 - Representantes de vendas
5 - Contadores e profissionais de finanças
6 - Executivos/gestores
7 - Gerente de vendas
8 - Profissionais de TI
9 - Secretárias, assistente administrativo e auxiliar de escritório
10 - Motoristas

No Brasil:
1- Operários
2- Técnicos
3 - Motoristas
4 - Secretárias, assistente administrativo e auxiliar de escritório
5 - Trabalhadores de ofício manual
6 - Profissionais de TI
7 - Contadores e profissionais de finanças
8 - Operadores de máquinas e produção
9 - Engenheiros
10 - Gerentes de vendas

Fonte: O Globo - RJ

Retomada só em 2015

Foto / Divulgação
Com indicadores cada vez mais desfavoráveis, como a lentidão na criação de empregos com carteira assinada, embora ainda não apareçam sinais de desemprego (leia na página 15 da presente edição), a economia brasileira avança pelo segundo semestre com apenas uma certeza: a confiança está baixa para o consumo e o investimento e sua volta só é possível após as eleições. Portanto, recuperação – se e quando vier, é só para 2015.

Esse cenário foi passado em revista, ontem, por dois renomados economistas, em São Paulo: Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio-diretor da Tendências Consultoria e Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

Para um público de associados da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Loyola – eleito Economista do ano de 2014 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB) – disse que a economia está anêmica e sem dinamismo, em parte por causa do cenário externo de crescimento baixo, mas principalmente por causa do ambiente doméstico.

"A média de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil de 2011 a 2014 foi de 1,7% ao ano. O percentual foi 47% menor do que o crescimento médio de países da América Latina. O dever de casa na política macroeconômica não foi bem feito", afirmou.

Para este ano, a projeção é de alta de 0,6% do PIB, percentual que sobe para 1,5% em 2015.

Barros, frente a uma platéia de empresários, reunidos no XII Encontro Nacional SCA Systema Consultores Associados, disse que o Brasil não vai tão mal, mas precisa correr para se adaptar à realidade do financiamento global após a retirada de estímulos monetários pelos Estados Unidos, prevista para o segundo semestre deste ano. "No próximo governo teremos um semestre de ajustes nos preços administrados e fiscal, além de reformas necessárias. O segundo semestre de 2015 será de recuperação da confiança", afirmou.

Nomeando-se “um realista esperançoso”, qualificação que tomou emprestada de Ariano Suassuna (1927-2014), reforçou que não gosta do rótulo de otimista. "O problema é que há uma politização excessiva do debate macroeconômico", disse. A projeção de Barros para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano é de crescimento de 1%, com viés de baixa. Para 2015, a projeção é de elevação de 1,5%.

Ambos os economistas falaram, depois de suas palestras, ao Diário do Comércio. Veja abaixo trechos das entrevistas.

"Baixo crescimento não surgiu do nada"
 
Diário do Comércio – Por que a projeção é de crescimento de 0,6% para o PIB 
neste ano?
Gustavo Loyola – Por causa da piora das expectativas dos empresários e consumidores, que tem a ver com o problema setorial da energia elétrica e o excesso de intervenção do governo em diversos setores. A aceleração da inflação deixou consumidores mais temerosos sobre seus salários reais, e com uma piora do mercado de trabalho. A percepção de que falta dinamismo gera um círculo vicioso, o que é ruim. Também tivemos fatores conjunturais, como a Copa do Mundo que atrapalhou a produção com muitos feriados, além da própria situação externa. É preciso lembrar que o baixo crescimento de 2014 não surgiu do nada e vem manifestando tendência de desaceleração desde 2011. Os fatores que levavam a economia para frente estão mais ou menos esgotados. O Brasil precisa reinventar o crescimento e isso passa por medidas que aumentem a produtividade e o investimento. Para isso é preciso um quadro macroeconômico estável, confiável e com reformas. 
 
DC – E isso só acontecerá após as eleições, em 2015?
GL – Sim. O processo eleitoral tirou do foco a política econômica e nenhuma medida estrutural será adotada porque depende do Congresso. Vai ficar para o ano que vem. O primeiro ano do próximo governo terá de ser aproveitado, porque normalmente é o período em que há uma base de apoio mais sólida. A oportunidade de 2015 não pode deixar de ser aproveitada. 
 
DC – O que falta aos candidatos, nesse sentido?
GL – O debate econômico está claro nessa eleição e todos os candidatos procuram falar de economia. Os de oposição evidentemente criticam a presidente, que se defende. A oposição diz que tem uma postura diferente da atual gestão. O importante é a sinalização de todos eles, e da própria presidente, sobre o que pretendem fazer em 2015 para tirar o Brasil dessa situação. Não adianta achar que está tudo bem e que não estamos crescendo só por causa da crise externa. No caso da presidente, será necessário que mostre  comprometimento com o avanço de reformas. De certa forma, fazendo um paralelo não perfeito, espera-se dela uma "carta aos brasileiros", como teve o papel da carta aos brasileiros do ex-presidente Lula, em 2002, mostrando os compromissos. 
 
DC – A economia está anêmica, mas qual a gravidade? E o que o senhor acha dos que dizem que estamos entrando em uma estagflação?
GL – O Brasil não está em crise, mas com uma economia estagnada, com baixo crescimento, e uma inflação alta. Então, desse ponto de vista, podemos dizer que pode ser o início de um processo de estagflação, que em sua definição clássica combina esses dois indicadores ao alto desemprego. Felizmente o mercado de trabalho não foi atingido, mas não há garantias de que as empresas podem ter queda no lucro e, para se defender, precisem cortar custos e reduzir o quadro de funcionários.
 
 
"Belle Époque do crédito não volta"
 
Diário do Comércio – As medidas para estimular o crédito tomadas pelo Banco Central terão efeito? 
Octavio de Barros – Sim. No médio prazo são positivas. Mas dependem da recuperação da confiança e do apetite do consumidor. Não temos problema de oferta de crédito pois os bancos estão fazendo o dever de casa e vão cooperar para aumentá-la. Mas há um problema de demanda. 
 
DC – Por que há tal problema?
OB – Não há relação com a inadimplência, que está em um patamar muito baixo. É um problema localizado: o orçamento apertado das famílias. Os serviços passaram de 40% para 60% no consumo total das famílias em um período de sete anos. Então, aquela "irresponsabilidade" dos consumidores com o crédito ocorreu até meados de 2011. De lá para cá, observamos uma mudança comportamental das famílias, que estão mais cautelosas e disciplinadas. Passamos por um período de aprendizado e a alta da inadimplência foi o custo social de uma inclusão bancária espetacular. 
 
DC – O senhor disse  que o período de 2004 a 2011 foi uma Belle Époque, que não volta mais. Explique.
OB – Foi a Belle Époque de inclusão social e bancarização acelerada. Foi datado historicamente e não podemos olhar para frente e reproduzir o que aconteceu. No período 2004/2011 o PIB cresceu à taxa média de 4,1% ao ano. De 1994 a 2013 o crescimento médio anual foi de 3,1%. Consumo e crédito cresciam acima do PIB. As empresas acharam que isso se repetiria ininterruptamente e agora refazem as contas. Agora o crédito e o consumo vão crescer mais em linha com o PIB. 
 
DC – Quais são os riscos de uma estagflação no Brasil?
OB – Muitos falam nisso por causa do PIB baixo e da inflação alta. Mas precisam olhar nos livros, porque há o componente do alto desemprego. Mesmo com a mão de obra caindo no Brasil, o desemprego é baixo. Esse índice vai piorar um pouco, em 0,5 ponto percentual no nosso cenário. Isso porque a população ocupada está desacelerando. A oferta de mão de obra caiu porque a população cresce pouco, os jovens permanecem na escola e os aposentados não voltam ao mercado, graças ao aumento de renda e de demais benefícios.
 
DC – Qual a sua projeção para inflação?
OB – A inflação está dentro da média histórica e vai fechar o ano em 6,3%. Passamos por uma transição natural, na qual a  inflação vai convergir para o centro da meta. Acredito que isso possa ocorrer entre 2017 e 2018, dada a rigidez da inflação de serviços no Brasil. O crescimento vai voltar gradualmente e chegar ao patamar de 3% daqui a um par de anos. Mas isso depende da volta da confiança, da agenda de reformas e da plataforma que será construída para o futuro. Qualquer que seja o novo governo, terá de fazer correções, ajustes adaptativos e preparar a economia para a retirada de estímulos nos Estados Unidos. Muitos falam que o juro norte-americano subirá antes, mas eu acho que será em junho de 2015.

Por Rejane Tamoto
Fonte: Diário do Comércio - SP

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Novas ferramentas virtuais querem facilitar a vida do consumidor

- / Reprodução
Duas novidades estão sendo lançadas no mundo virtual para facilitar a vida dos consumidores, mas, com certeza, darão mais trabalho às empresas: o site ReclameAqui desenvolveu o registro de reclamação via WhatsApp; e já está disponível para ser baixado o app Reclamigão, que condensa classificações dos serviços ReclameAqui, Procon, Reclamão, Ebit, Consumidor.gov.br e Denuncio.

O aplicativo Reclamigão, criado por Marcelo Valente, possibilita que o consumidor consulte o comportamento de uma empresa com base em todos os serviços de avaliação já disponíveis. A partir do aplicativo – gratuito e nas versões mobile no AndroidiOS e Windows Phone -, é possível saber o histórico de mais 90 mil empresas da internet. O novo serviço ainda destaca a opinião de amigos sobre determinada empresa sem a necessidade de usar redes sociais.

Até o início de setembro, o ReclameAqui disponibilizará aos consumidores o envio de reclamações via WhatsApp. Com essa nova ferramenta, a direção do site acredita que haverá aumento de 25% nas queixas sobre o que é hoje registrado no site. 



Por Angela Crespo

Fonte: Diário do Comércio - SP

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Expediente mais curto diminui ou aumenta sua produtividade?

Longas horas de labuta estão associadas a efeitos agudos de fadiga, como sonolência e desatenção

Expediente mais curto diminui ou aumenta sua produtividade? Stock Images/Stock Images

Reduzir a jornada de trabalho não reduz em igual medida a produtividade do profissional. Por mais paradoxal que pareça, essa é a conclusão da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em estudo divulgado em 2011. E ela não está sozinha. Dois anos antes, uma pesquisa em manufaturas americanas mostrou que espichar em 10% as horas de labuta comprometia em 2,4% a produtividade média dos trabalhadores. A relação inversa entre os dois aspectos se manteve em análise nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).


De acordo com a OIT, longas jornadas estão associadas a efeitos agudos de fadiga, como sonolência e desatenção, favorecendo erros e acidentes. Já uma carga horária pesada na semana também traria riscos de problemas crônicos de saúde e conflitos entre a vida pessoal e a profissional.

Se o patrão levasse em conta um diagnóstico para 16 países feito pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e Trabalho, adotaria meio período e horários flexíveis para empregar pessoas mais comprometidas no trabalho e mais relaxadas fora dele.

No Congresso, entre o sim e o não
O Brasil se junta a menos da metade dos países na adoção da carga horária semanal superior a 40 horas. Proposto pelo então deputado Paulo Paim (PT-RS), um projeto de emenda constitucional tramita desde 1995 no Congresso pedindo as 40 horas e aumento para 75% na remuneração das horas extras.

Hoje senador, Paim cita o exemplo de uma empresa paranaense que apresentou aumento de 37% na produtividade ao cortar oito das 44 horas do teto constitucional. O texto original do seu Pacto Empresarial do Pleno Emprego (Pepe) previa o mesmo limite de 36 horas, mas foi revisado para 40 horas, jornada máxima recomendada pela OIT em 1935.

– No Senado, a matéria não tem avançado. Deve ser votada no ano que vem. Garantiria mais gente consumindo e recebendo. A Previdência arrecadaria mais, haveria menos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho e melhoraria a produtividade – lista o senador.

Segundo Paim, opositores da medida apresentam uma "análise fria" ao prever o aumento do custo da mão de obra. Em reunião com empresários em maio, a presidente Dilma Rousseff foi aplaudida ao sinalizar que a pauta é inoportuna em cenário de pleno emprego, esvaziando a tese de que a mudança traria novas contratações para suprir as novas brechas no expediente.

– O momento do Brasil é bom, mas o pleno emprego é para quem tem o mínimo de formação técnica. Jovens na faixa dos 20 anos não estão tendo oportunidades de ingressar no mercado e adquirir experiência – lamenta Paim, acrescentando que a tendência mundial é caminhar para 36 horas e que "o problema é convencermos os empreendedores".

Vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o deputado Laércio Oliveira (Solidariedade/SE) alerta que o tiro sairia pela culatra, gerando desemprego:
– A micro e a pequena empresa perderiam muito com esse projeto que não contribui em nada ao Brasil, não traz vantagem a nenhuma das partes e prejudica a grave situação econômica que o país atravessa. É uma atitude inconsequente que só vai prejudicar o setor produtivo nacional – afirma o deputado, para quem "o único caminho que as empresas teriam seria a demissão".

Quanto aos trabalhadores que se mantivessem empregados, Oliveira nega que eles perceberiam qualquer benefício:
– Bem-estar, mais tempo para se dedicar à família, cuidar da saúde... É um discurso sem consistência alguma. O trabalhador vai continuar a vida dele do mesmo jeito. Reduzir quatro horas de trabalho por semana não vai melhorar a qualidade de vida dele em nada. Para as empresas, sim, o prejuízo vai ser certo – sustenta, pregando uma reforma trabalhista no país para que, "sem a ingerência do governo", as relações de trabalho se assentem à "realidade de cada atividade".

Para Ana Cláudia Moreira Cardoso, socióloga do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o Brasil tem tanto a "necessidade" quanto as "condições" de reduzir a jornada.

– As centrais sindicais retomaram essa campanha lá em 2003. Isso deixa claro o tamanho da resistência. Trata-se do cerne da relação trabalho-capital, que é o tempo de trabalho. Historicamente, a diminuição da jornada nunca aconteceu de forma tranquila, sempre resultou de muito embate – observa a socióloga.

As confederações que representam o empresariado têm defendido que o assunto deve ser resolvido sem a intervenção estatal, já que os acordos coletivos estariam dando conta de estreitar a lida nas firmas. Uma das várias notas técnicas que o Dieese vem lançando sobre o assunto nega, entretanto, esse argumento.

– Temos um grande banco de dados, pesquisamos acordos e convenções para ver se havia esse fenômeno, e não foi o que verificamos. A redução a partir de acordos é uma experiência localizada, de metalúrgicos do ABC Paulista e de uma ou outra categoria muito pontualmente, como a de farmacêuticos em São Paulo – diz Ana Cláudia.

Em 2009, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sinalizou que 37 é o número certo para garantir emprego a todos os brasileiros. Já o Dieese diz que, ficando em 40, já seriam gerados 2 milhões de empregos.

A tendência mundial é de redução. A Alemanha, tradicionalmente uma das maiores jornadas da Europa, cortou recentemente a semana de trabalho de 41,6 para 40,8 horas. Na França, o limite de 40 horas, fixado em 1936, foi reduzido para 39 em 1982 e 35 no ano 2000. Apesar disso, a França segue entre os países com a melhor relação entre PIB e horas trabalhadas, à frente de potências econômicas como Alemanha, Reino Unido e Japão.

– Hoje o que causa desemprego e falência é a crise de 2008, que nada tem a ver com redução de jornada. A França reduziu sem perder competitividade. Competitividade tem a ver com investimento em infraestrutura, educação, outras questões – sugere a socióloga.

Da caça ao chão de fábrica
O consenso científico atual aponta que, dos povos da Namíbia às tribos amazônicas, o tempo de lazer era muito mais extenso entre os primitivos do que no mundo urbano de hoje, negando o mito de que os nossos ancestrais pré-históricos passavam o dia caçando o pão de cada dia.

Trabalhar permaneceu como atividade atada aos limites das estações do ano até que a Revolução Industrial, no século 18, passou a esvaziar a zona rural, atraindo camponeses para o interior das fábricas das grandes cidades. Transformando noite em dia, a luz artificial criou um turno novo de trabalho. Assim, era possível bater o ponto na firma e sair somente 16 horas depois. 


Henry Ford, fundador da montadora de carros que leva o seu sobrenome, foi pioneiro na redução das horas de trabalho. Não que ele prezasse pelo bem-estar de seus funcionários: Ford percebeu que os trabalhadores precisavam de tempo livre para comprar produtos e manter a roda da economia girando. Ao justificar por que, sem reduzir salários, havia trocado a semana de 48 horas/seis dias pela de 40 horas/cinco dias, Ford disse que os trabalhadores precisavam de períodos vagos para descobrir utilidades para mercadorias como o próprio automóvel.

Fonte: Diário Catarinense